BRAÇO FORTE MÃO AMIGA

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A MÃO INDIZÍVEL

Eugênio Bucci - O Estado de S.Paulo
De uns dias para cá, o horário nobre da televisão brasileira passou a veicular uma campanha publicitária para idolatrar o governo federal. Mais uma. Desta vez o mote é a mão: ela mesma, a mão, esse prodígio de articulações múltiplas com metacarpo, dedos, unhas e incontáveis habilidades, inclusive as políticas. A mão é a mais nova garota-propaganda dos atos do Executivo.

Não, não é de todo absurdo. Além de ferramenta, a mão pode ser discurso, e não apenas na linguagem de sinais. Existe a mão de esquerda: dos punhos cerrados, que denota combatividade. Há o dedo de direita: o dedo em riste, representante da razão que assevera. A mão espalmada, rija, voltada para a frente, no alto do braço erguido, é saudação nazista. Muda-se o contexto e essa mesma mão ganha outro significado: dentro da igreja ela abençoa os noivos, sorridentes, no altar. Existe a cura espiritual pela imposição de mãos, assim como existem a mão na cara, a mão de súplica, a mão que insulta. Há mãos a mancheia, mãos que não acabam mais. Agora os publicitários do Planalto, para darem uma mãozinha à imagem da Presidência da República, inventaram a mão eleitoreira. É a mão do PAC.
Nos anúncios de TV, a mão do PAC é uma mãozona que desce do céu e põe estradas no alto de colinas verdes e planta escolas como árvores no descampado. Depois a mãozona volta para o céu, contente. É uma mãozona que parece mão boba, mas é apenas uma mão leve, no bom sentido: leve e bojuda como um balão de ar quente. Que mãozona é aquela? A voz em off diz que aquela é a mão do povo. "O Brasil está em boas mãos. Nas mãos do povo brasileiro". No arremate do filmete promocional, duas mãos abertas, em concha, aparecem em close. Elas estão maquiadas, pintadas com as cores da bandeira nacional. São mãos humildes, populares, patrióticas - e sacralizadas. Misticamente sacralizadas.
A intencionalidade explícita, escancarada, quase obscena da inteligência publicitária reside aí. Ela pretende aproximar a expressão "nas mãos do povo" a uma outra, bastante conhecida, de uso corrente: "nas mãos de Deus". É o que dizemos de um doente desenganado: ele está nas mãos de Deus. Mesmo quando não há esperanças, as mãos de Deus conduzem ao melhor pouso. "Segura na mão de Deus, e não olhe para trás", entoavam os coroinhas há mais de 30 anos. Nesse ponto é que tirocínio publicitário enxergou a oportunidade de uma ressignificação que seria uma mão na roda: se, desde Roma, o latim ensina que "a voz do povo é a voz de Deus", nada mais natural que insinuar que "as mãos do povo" são a materialização das mãos de Deus.
Isso feito, o resto é simples, supõe a vã publicidade. Manuseando seus significantes vistosos, ela se imagina capaz de instilar na massa de mãos postas a certeza de que, no fundo, as mãos do governo federal é que são de fato as boas mãos, pois elas nada mais são do que as mãos do povo e, por decorrência semântica, as mãos de Deus. Eis então que, num milagre da propaganda, o Poder Executivo é a materialização do Espírito na superfície do Planalto Central. O governo é igual a Deus. Vamos dar as mãos, vamos dar as mãos. A partir de agora, enlevados por tão inspiradora evangelização cívica, todos nós, todos juntos, vamos empunhar o ufanismo bíblico e erguer as nossas mãos para o céu em agradecimento.
Ou será que não?
Ou será que, uma vez mais, a publicidade governamental, do alto de seu olimpo eletrônico, de onde vende essa mercadoria impalpável, intangível, chamada popularidade, estaria apenas comunicando o exato oposto do que pretende? A pergunta tem lá seus fundamentos.
O repertório dessas campanhas oficiais é meio de segunda mão. Ele se mantém praticamente inalterado desde a ditadura militar. Se o leitor examinar, verá que não há grande diferença entre "Pra frente Brasil" e "O Brasil está em boas mãos". É um repertório gasto, esvaziado de credibilidade. No fundo, não é levado a sério por ninguém. As centenas de milhões de reais que os governos estaduais, municipais e, principalmente, federal desperdiçam na propaganda de si mesmos não servem exatamente para convencer o telespectador disso ou daquilo, mas para manter ativa a indústria da campanha eleitoral fora do período eleitoral e para manter acesa a memória do eleitor sobre quais os ícones que identificarão os candidatos governistas da próxima eleição. Propaganda governamental serve apenas para isso, não para ser levada a sério. Vistas isoladamente, cada uma das campanhas de governo é apenas ridícula. É verdade que essa das mãos, que coisa, essa extrapolou. Em matéria de comunicar exatamente o oposto do que pretende, bateu todos os recordes. Poderia aparecer, quase sem retoques, num Casseta & Planeta da vida, no qual significaria o seu contrário. Em vez de mensagem edificante, seria escracho puro.
A mão leve que desce para incrustar uma rodovia no chão poderia bem ser a que, suspeita-se, andou surrupiando uns milhõezinhos da infraestrutura. Ela poderia voltar para o céu com uns trocados entre seus dedos. Outra mão poderia levar um helicóptero da polícia para o quintal de uma certa autoridade, que diria que um helicóptero não faz mal a ninguém, não vai deixar ninguém na mão. De piada em piada, tudo vai ficando bastante constrangedor, é claro, mas é o que é. Alguém deveria avisar aos publicitários chapa-branca que esse negócio de brincadeira de mão não dá certo.
Talvez o leitor se lembre de um cantor das antigas que trinava em barítono: "Maria, o teu nome principia, na palma da minha mão". Ficam os acordes. Maracutaia também começa com m. Malversação de fundos, igualmente. Do povo, do povo mesmo, a única mãozinha que existe nessa história é aquela mão que trabalha, gera riqueza e impostos. Nisso aí, o povo entra com o suor e sai de mãos abanando. É com o dinheiro do povo que o governo paga a conta milionária da sua propaganda inacreditável.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM

sábado, 20 de agosto de 2011

"DIPLOMACIA COMPANHEIRA" e IDEOLÓGICA!!!

O GLOBO - 20/08/2011 - Brasil recai na 'diplomacia companheira'
Não resistiu muito tempo a reciclagem da política externa sob o comando de Dilma Rousseff. E o Brasil voltou a ficar do lado errado, o de ditaduras violentas, genocidas. Desta vez, em apoio aos Assad, donos da Síria, onde, segundo estimativas da ONU, já morreram 2 mil pessoas sob bombardeios do regime. Ontem, foram no mínimo 18.

O primeiro sinal de que a política externa poderia voltar a correr no leito das melhores tradições do Itamaraty foi emitido por Dilma recém-eleita presidente, em entrevista ao "Washington Post". Nela, criticou a abstenção brasileira numa votação na ONU de moção contra o Irã devido ao desrespeito pelos direitos humanos por parte do país dos aiatolás e de Ahmadinejad. Já no Planalto, Dilma reforçou as expectativas otimistas ao instruir a representação brasileira na ONU a não ter a mesma condescendência dos tempos de Lula com o líbio Muamar Kadafi, "amigo e irmão" do ex-presidente. Se no Conselho de Segurança o Brasil se absteve na apreciação da resolução com base na qual a Otan interveio para conter os ataques das forças armadas leais ao ditador à população, no Conselho dos Direitos Humanos foi firme e concordou com a expulsão da Líbia deste fórum, também das Nações Unidas. Havia a possibilidade concreta de terem ficado para trás os tempos de imoral convívio da diplomacia brasileira com ditadores de todo tipo, em nome de um antiamericanismo juvenil, num repeteco deprimente de uma política de "não alinhamento" inspirada no esquerdismo da década de 60 do século passado.

Mas a entrada da Síria na agenda das preocupações mundiais levou o Itamaraty de Dilma a uma recaída na "diplomacia companheira", simpática a qualquer um que tenha carteirinha de "anti-imperialista".

De Robert Mugabe a Chávez, péssimas companhias. (O mesmo raciocínio levaria ao apoio a Hitler e Mussolini.)

Pois, quando países árabes como a Arábia Saudita e Kuwait retiram os embaixadores de Damasco, a Turquia se mostra impaciente com os Assad, e até a Rússia não esconde algum mau humor com os antigos aliados, o Brasil, junto com Índia e África do Sul, tem feito o possível para evitar uma resolução do Conselho de Segurança à altura da tragédia em curso na Síria. No máximo, apoiou uma "declaração" inodora do CS sobre o conflito, com a cínica conclamação a ambos os lados para evitarem a violência, inclusive contra "instituições estatais". Argumento brasileiro: é preciso encontrar uma fórmula negociada de saída da crise. Só muita ingenuidade ou - o provável - doses cavalares de ideologia.

Nesta semana, Barack Obama deu um ultimato a Assad, seguido por Angela Merkel (Alemanha), Sarkozy (França) e Cameron (Inglaterra). Já passou da hora de uma resolução firme do CS, para barrar a carnificina. O fim de semana deve ser de intensas negociações entre as chancelarias, e Dilma ainda tem chances de reparar o erro crasso que comete neste recuo. Mas há o risco de, assim como na gestão Lula, a presidente colocar a política externa no pregão das barganhas. Lula, para conseguir, principalmente no primeiro mandato, executar uma política econômica séria, concedeu ao PT numa diplomacia terceiro-mundista. Será profundo equívoco se Dilma imaginar trocar a mediocrização da diplomacia por uma política interna de alguma intransigência com a corrupção, e que já incomoda o PT. Questões de princípios não devem ser mercadejadas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Atenção!!!!Dilma Rousseff, "ele" assina em teu nome.

Demétrio Magnoli - O Estado de S.Paulo
O ditador Bashar Assad encontrou nos enviados do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) os bonecos de ventríloquo ideais para transmitir ao mundo a sua versão dos eventos sangrentos em curso na Síria. O comunicado final da delegação, um dos documentos mais abjetos jamais firmados pelo Brasil, pinta o cenário de um regime engajado na sua reinvenção democrática, mas assediado pela violência de grupos armados opositores. A assinatura brasileira converte Antônio Patriota em cúmplice de um Estado policial que se dedica à matança de sua população. Patriota, contudo, é funcionário de Dilma Rousseff. A assinatura dele é a dela.

O Itamaraty difunde a narrativa oficial síria, segundo a qual o derramamento de sangue se deve à violência de setores da oposição. Há nisso uma nota sinistra, só audível por quem conhece o passado recente da Síria. Refiro-me a Hama e a fevereiro de 1982. Nessa cidade sunita operavam guerrilheiros islâmicos que combatiam o regime de Hafez Assad, pai de Bashar. Após uma emboscada dos rebeldes contra forças militares, o ditador ordenou o bombardeio de toda a cidade, por terra e ar. Num tempo anterior à internet e aos celulares, há escassas, mas pungentes, imagens do resultado. No fim, Hama parecia as cidades alemãs extensivamente bombardeadas na guerra mundial.
Um dos filhos do ditador supervisionou o ataque e se gabou de matar quase 40 mil pessoas, uma cifra confirmada pelas estimativas independentes. Quando os escombros ainda ardiam, o governo vazou para a imprensa libanesa a notícia das dimensões da carnificina, enviando uma mensagem ao povo sírio. A mensagem foi decodificada, em muitos sentidos. Até há pouco, aos murmúrios, os sírios se referiam ao massacre por meio de um sombrio eufemismo: "os incidentes de Hama". Agora, enfrentando munição real, os manifestantes voltam às ruas num ânimo quase suicida, pois sabem que só têm a alternativa de derrubar o regime. Patriota deveria ter a decência de pensar duas vezes antes de colar o selo do Itamaraty sobre a versão de Damasco: na linguagem dos Assad, a expressão "gangues terroristas" é a senha para aplicar a "lei de Hama".
Além de tudo, a versão é falsa. Em 17 de julho, uma conferência nacional de 450 líderes opositores, laicos e religiosos, conclamou à desobediência civil pacífica. O regime respondeu armando 30 mil milicianos da minoria alauita, a fim de reconfigurar o cenário como um conflito sectário. Artilharia, tanques e navios alvejam Hama, Homs, Deir ez-Zor e Latakia. O saldo provisório já atinge 2 mil mortos. Líderes da tribo baqqara, de Deir ez-Zor, autorizaram o uso de armas contra incursões assassinas do Exército, de casa em casa, que não poupam crianças. Vergonha: o gesto desesperado de pessoas acuadas serve como o pretexto para Patriota reverberar a senha de uma ditadura inclemente.
Pretexto é a palavra certa. O Itamaraty não se importa com os fatos: segue uma agenda ideológica. A Constituição prescreve, no artigo 4.º, que o Brasil "rege-se, nas suas relações internacionais" pelo princípio da "prevalência dos direitos humanos". Dilma prometeu respeitar o artigo constitucional. O compromisso, expresso num voto contra o Irã, não resistiu a um outono. Em março, a abstenção na resolução da ONU de intervenção na Líbia evidenciou uma oscilação. Em junho, a recusa da presidente em receber a dissidente iraniana Shirin Ebadi, Nobel da Paz, sinalizou o recuo. Em 3 de agosto, a rejeição a uma condenação da Síria no Conselho de Segurança da ONU concluiu a restauração da política de Lula, Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia. No seu desprezo inigualável pelo mandamento constitucional, o comunicado do Ibas equivale a uma celebração orgiástica da velha ordem.
Num Roda Viva, da TV Cultura, indaguei a Celso Amorim sobre os motivos do governo para ignorar sistematicamente o artigo 4.º da Constituição. O então ministro do Exterior retrucou invocando o princípio da autodeterminação dos povos e da não intervenção, contemplados no mesmo artigo, mas em posição inferior. A resposta vale tanto quanto as promessas reformistas de Assad. Na verdade, como fica explícito num livro do ex-secretário-geral do Itamaraty Samuel Pinheiro Guimarães, a linha do governo deriva de uma curiosa tradução do objetivo de promover a "multipolaridade" nas relações internacionais. "Multipolaridade", no idioma de nossa atual cúpula diplomática, exige a redução da influência global dos EUA - o que solicitaria o apoio brasileiro aos regimes antiamericanos, sejam eles quais forem.
A Turquia perdeu a paciência com a Síria e exigiu uma imediata retirada militar das cidades assediadas. Sob pressão popular, governos árabes condenam, sem meias palavras, a selvagem repressão. O Egito alertou Damasco sobre a ultrapassagem de um "ponto de não retorno". Nas ruas do Cairo e de Beirute, manifestações pedem o isolamento de Assad. Longe da região, irresponsável, alheio às obrigações assumidas pela comunidade internacional, o governo brasileiro converte-se num dos últimos bastiões de um Estado policial sanguinário. Desse modo, numa única tacada, viola um elevado princípio constitucional da nossa democracia e agride o interesse nacional, afastando-nos da meta legítima de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Não há muito a fazer. A Comissão de Relações Exteriores do Senado é presidida por um neolulista chamado Fernando Collor. A oposição renunciou ao confronto político de ideias, limitando-se à pescaria de ocasião na lagoa pútrida da corrupção nos ministérios. Os intelectuais de esquerda, sempre prontos a fulminar com os raios de sua fúria santa os desvios retóricos do editorial de um grande jornal, não produzem manifestos de contestação aos atos do lulopetismo - ainda mais se justificados pela doutrina do antiamericanismo. Resta escrever: atenção, Dilma, Patriota assina em teu nome!

SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMETRIO.MAGNOLI@TERRA.COM.BR
 

Dilma segue a LEI DE JOHNSON!!!!!!!

- O Estado de S.Paulo
Quando vieram lhe pedir a cabeça do todo-poderoso chefe do FBI, J. Edgar Hoover, porque mandara espionar os líderes do movimento pelos direitos civis, sem respeitar nem o reverendo Martin Luther King, o presidente Lyndon Johnson, que governou os Estados Unidos de 1963 a 1969, rejeitou a ideia com um argumento que se tornaria um marco do pragmatismo político, quanto mais não fosse pela forma que o desbocado texano encontrou para se expressar. "É melhor ter o Hoover dentro da nossa tenda, urinando para fora", ensinou, "do que tê-lo fora, urinando para dentro".

A presidente Dilma Rousseff pode, ou não, conhecer a história - e decerto não usaria tais termos em circunstâncias similares. Mas, aconselhada pelo expoente do pragmatismo na política brasileira, o seu antecessor Lula da Silva, a presidente aplicou a Lei de Johnson para recompor as suas relações com os partidos aliados, a começar pelo mais forte deles, o PMDB do vice Michel Temer, com seus 80 senadores e 20 deputados. Reunida na segunda-feira à noite com a cúpula da sigla e a do PT - a "espinha dorsal do governo", como disse -, Dilma parecia o seu patrono.
Enquanto os convivas sorviam um alentador caldo verde, anunciou o descongelamento imediato de R$ 1 bilhão para as emendas parlamentares da base, prometeu evitar novos atritos, manifestou "confiança" no peemedebista Pedro Novais, titular da escrachada pasta do Turismo, e considerou nada menos do que "exemplar" a conduta do colega dele na Agricultura, Wagner Rossi, outro correligionário alcançado por denúncias de corrupção. (No dia seguinte, exsudando felicidade, ele desfilaria pela repartição com os braços erguidos e os punhos cerrados, repetindo, pateticamente: "Estou firme, estou firme". Em menos de 24 horas viu-se obrigado a deixar o governo.)
Não menos exultante, também por motivos pessoais, como não poderia deixar de ser, ficou o líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves, que vinha reclamando do frio na tenda dilmista. A reunião, entoou, representou um "novo marco". Pudera: a anfitriã chancelou o acordo pelo qual o PT ficou de ceder ao PMDB, ou seja, a Alves, a presidência da Casa em 2013. Era o que ele mais queria para se sentir reconfortado e pronto para fazer o equivalente ao que o americano Johnson queria que o indócil Hoover fizesse "para fora". E Dilma, que imaginara ingenuamente que bastaria um encontro daqueles por semestre, vai fazer um por mês - sem deixar de fora nenhuma legenda aliada.
Poderá, quem sabe, convidar até os senadores do PR que divergiram da decisão do seu presidente, o ex-ministro Alfredo Nascimento, de retirar o partido da coalizão, em represália à limpeza ética que o apeou e aos seus apaniguados dos Transportes. O capixaba Magno Malta, por exemplo, anunciou que não tem a menor intenção de sair da base. O seu irmão Maurício, a propósito, usufrui de uma boquinha no famigerado Dnit. Outro perrepista dissidente, o mineiro Clésio Andrade, tem um afilhado na superintendência local do órgão. A rigor, não havia motivo para ansiedade: o PR não pediu a ninguém que se demitisse; apenas que deixasse os cargos "à disposição".
O pano de fundo da conversão de Dilma ao pragmatismo lulista combina dois tons. Um é a ficha que enfim caiu: a base não pertence à presidente; é uma aquisição do seu mentor, cedida a ela em comodato e sujeita a panes se não for administrada como os seus membros foram acostumados a esperar. O outro tom são as circunstâncias: Dilma precisa de votos no Congresso não apenas para a "governabilidade", em abstrato, mas para aprovar medidas que poupariam o País do contágio da crise externa e derrubar aquelas que, no seu entender, tenham efeito oposto. Nessa conjuntura, a higiene johnsoniana na tenda é tida como crucial pela presidente.
Não se trata, portanto, daquela que seria propiciada pela dedetização dos inumeráveis focos de corrupção no seu interior. Talvez Dilma já não reaja a novas denúncias da imprensa como reagiu no caso dos Transportes. Segundo uma versão, no ágape com o esfaimado PMDB, ela teria considerado "sectarista" (sic) a cobertura dos escândalos. No sentido que conta, é mesmo. Cabe à imprensa, de fato, distinguir o bem do mal - e escolher entre um lado e outro.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PEDRO NOVAIS Ministro do Turismo, como sempre "NÃO SABIA DE NADA"

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Ministérios em crise: veja frases dos políticos

Foto 12 de 12 - Pedro Novais, ministro do Turismo, em sua primeira audiência pública no Congresso desde o surgimento de denúncias em sua pasta Alan Marques/Folhapress - 17.ago.2011/Arte UOL
Em sua primeira audiência pública no Congresso desde o surgimento de denúncias em sua pasta, o ministro do Turismo, Pedro Novais, negou que soubesse das irregularidades veiculadas pela imprensa sobre possíveis desvios de recursos públicos do ministério em convênios com entidades sem fins lucrativos.
“Se houve deslizes por irregularidades, não sei, mas admito que, pelo que aconteceu, alguma coisa pode ter havido, mas isso esta sendo corrigido e será francamente eliminado”, disse nesta quarta-feira (17), em audiência conjunta das comissões de Fiscalização Financeira e Controle; de Defesa do Consumidor; e de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados.
“O ministério do Turismo adotou critérios mais rigorosos na prestação de contas das instituições privadas sem fins lucrativos”, afirmou.
Novais citou a criação de portarias para analisar novamente todos os contratos dos ministérios e a redução para 30 dias do tempo para que as entidades conveniadas apresentem suas prestações de contas. Além disso, os convênios serão suspensos por 45 dias.
“Há um esforço concentrado para que convênios já firmados sejam analisados e reavaliados. Para isso designamos uma força tarefa especial.”

Panorama do Turismo no Brasil

Novais começou sua fala apresentando um panorama do setor na audiência. O setor gera R$ 75 milhões e emprega cerca de sete milhões de brasileiros direta e indiretamente, segundo dados do ministério.
Criada em 2003, a pasta era parte do ministério do Esporte. Hoje, de acordo com Novais, o ministério possui cerca de 300 funcionários, dos quais 170 são comissionados e conta com um orçamento em 2011 de R$ 2,7 bilhões.
O ministro destacou que o contingenciamento estipulado pela presidente Dilma Rousseff em todas as pastas reteve do Turismo 30% do orçamento mais todas as emendas de bancada previstas para o uso do Turismo.

Entenda as denúncias contra os ministérios

terça-feira, 16 de agosto de 2011

MANIFESTO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DELEGADOS DA POLÍCIA FEDERAL.

PRESIDÊNCIA

Nota de Esclarecimento:
Atuação da Polícia Federal no Brasil

12/08/2011 - 18:31

A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal vem a público esclarecer que, após ser preso, qualquer criminoso tem como primeira providência tentar desqualificar o trabalho policial. Quando ele não pode fazê-lo pessoalmente, seus amigos ou padrinhos assumem a tarefa em seu lugar.
A entidade lamenta que no Brasil, a corrupção tenha atingido níveis inimagináveis; altos executivos do governo, quando não são presos por ordem judicial, são demitidos por envolvimento em falcatruas.
Milhões de reais – dinheiro pertencente ao povo - são desviados diariamente por aproveitadores travestidos de autoridades. E quando esses indivíduos são presos, por ordem judicial, os padrinhos vêm a publico e se dizem “ estarrecidos com a violência da operação da Polícia Federal”. Isto é apenas o início de uma estratégia usada por essas pessoas com o objetivo de desqualificar a correta atuação da polícia. Quando se prende um político ou alguém por ele protegido, é como mexer num vespeiro.
A providência logo adotada visa desviar o foco das investigações e investir contra o trabalho policial. Em tempos recentes, esse método deu tão certo que todo um trabalho investigatório foi anulado. Agora, a tática volta ao cenário.
Há de chegar o dia em que a história será contada em seus precisos tempos.
De repente, o uso de algemas em criminosos passa a ser um delito muito maior que o desvio de milhões de reais dos cofres públicos.
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal colocará todo o seu empenho para esclarecer o povo brasileiro o que realmente se pretende com tais acusações ao trabalho policial e o que está por trás de toda essa tentativa de desqualificação da atuação da Polícia Federal.
A decisão sobre se um preso deve ser conduzido algemado ou não é tomada pelo policial que o prende e não por quem desfruta do conforto e das mordomias dos gabinetes climatizados de Brasília.
É uma pena que aqueles que se dizem “estarrecidos” com a “violência pelo uso de algemas” não tenham o mesmo sentimento diante dos escândalos que acontecem diariamente no país, que fazem evaporar bilhões de reais dos cofres da nação, deixando milhares de pessoas na miséria, inclusive condenando-as a morte.
No Ministério dos Transportes, toda a cúpula foi afastada. Logo em seguida, estourou o escândalo na Conab e no próprio Ministério da Agricultura. Em decorrência das investigações no Ministério do Turismo, a Justiça Federal determinou a prisão de 38 pessoas de uma só tacada..
Mas a preocupação oficial é com o uso de algemas. Em todos os países do mundo, a doutrina policial ensina que todo preso deve ser conduzido algemado, porque a algema é um instrumento de proteção ao preso e ao policial que o prende.
Quanto às provas da culpabilidade dos envolvidos, cabe esclarecer que serão apresentadas no momento oportuno  ao Juiz encarregado do feito, e somente a ele e a mais ninguém.. Não cabe à Polícia exibir provas pela imprensa.
A ADPF aproveita para reproduzir o que disse o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos: “A Polícia Federal é republicana e não pertence ao governo nem a partidos políticos".
Brasília, 12 de agosto de 2011.
Bolivar Steinmetz
Vice-presidente, no exercício da Presidência
 

INVERSÃO DE VALORES

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
A presidente Dilma Rousseff ficou "irritada" com a ação da Polícia Federal no Ministério do Turismo. "Furiosa", chamou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, aos costumes e ele, por sua vez, "enquadrou" os subordinados da PF pela ocorrência de "exageros" na prisão de 36 suspeitos de corrupção na pasta.

A presidente teria ficado inconformada por não ter sido informada da operação e, desse modo, impossibilitada de evitar uma crise política na base aliada. Mais especificamente no PT e no PMDB, partidos aos quais era filiada parte dos envolvidos.
Tipo da história mal contada para apaziguar insatisfeitos.
Se avisada com antecedência, a presidente faria o quê? Cancelaria a operação? Dentro da legalidade, impossível, uma vez que as prisões são e foram feitas por determinação da Justiça.
Daria um alerta geral? Seria cúmplice na eventual fuga de um ou outro suspeito, acusada de obstrução da Justiça. Conversaria com os padrinhos de cada um, para tranquilizá-los? De nada adiantaria, pois as prisões seriam feitas do mesmo jeito. Note-se: por determinação da Justiça, não por capricho da Polícia Federal.
Ah, há o modo deselegante, o uso de algemas, a exposição das fotos dos suspeitos, a truculência, a agressão aos direitos individuais.
Há tudo isso, mas nada disso no momento, nem o modus operandi da Polícia Federal, é mais grave que as descobertas que têm sido feitas sobre o atrevido modus vivendi dos aproveitadores das funções públicas. Ou, para dizer de forma menos polida mesmo correndo o risco de agredir a sensibilidades repentinamente à flor da pele, dos corruptos.
Numa absoluta (e absurda) inversão de valores, as reações à ação da PF em cumprimento a decisão judicial ganharam mais destaque nos últimos dias que os atos cometidos em altos gabinetes dos Ministérios dos Transportes, da Agricultura e do Turismo.
Ficaram em segundo plano o superfaturamento, o pagamento de propinas, o tráfico de influência, o empreguismo, o nepotismo, o acobertamento, o favorecimento e malversações do gênero que grassam em repartições públicas federais como parte da rotina.
O lobista que transitava à vontade nas dependências do Ministério da Agricultura sob os auspícios de ninguém menos que o braço direito do ministro não é muito diferente do funcionário sem cargo formal e com acesso franqueado ao Ministério dos Transportes, que atuava sob o patrocínio do diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
No Turismo, era o vice-ministro em pessoa quem orientava a montagem de empresas de fachada para receber verbas públicas.
Há uma sistemática e há uma rede de ligações pessoais, partidárias e profissionais que precisa com urgência começar a ser desmontada. Esse é o ponto, é o foco do qual se pretende desviar a atenção geral sob a chancela da defesa do Estado de Direito.
Foi o tema de manifestação da presidente Dilma ontem, quando o primordial seria que comentasse as acusações de que o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, permitiu o uso eleitoral dos estoques da Conab, quando presidente da estatal, acobertou fraude em licitação na Agricultura e patrocinou pagamento irregular de dívida na presidência da Companhia Docas de São Paulo.
Todos os cargos ocupados por indicação do vice-presidente Michel Temer, seu amigo há 50 anos e recentemente locutor oficial de ato de desagravo a Rossi.
Tempo ao tempo. Em princípio, José Serra não será candidato à Prefeitura de São Paulo, preferindo se preservar para tentar a Presidência da República outra vez em 2014.
Até porque pesquisas de opinião mostram que o eleitor paulistano não receberia bem uma candidatura a prefeito já previamente marcada pela possibilidade de renúncia (mais uma vez) no segundo ano de mandato.
Serra sabe que se fosse eleito prefeito estaria irremediavelmente preso ao cargo até o fim. Entre os que têm mais chance de obter a legenda do PSDB, o candidato preferido por ele é o senador Aloysio Nunes Ferreira.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Nelson Motta - O Estado de S.Paulo

Nelson Motta - O Estado de S.Paulo
"Os partidos de esquerda que mantiverem a velha tradição de luta interna pelo controle dos aparelhos de poder, sem um projeto ousado e inovador, ficarão como os socialistas gregos, espanhóis e portugueses: sem fazer as suas reformas, serão reformados pelo mercado..."

É incrível, mas foi o Tarso Genro que disse isso! E o que fizeram os progressistas gregos, espanhóis e portugueses? Inflaram os gastos públicos com pessoal, empregaram seus companheiros no governo e nas estatais, ampliaram os direitos sociais mas não os deveres fiscais dos cidadãos, se endividaram temerariamente, aumentaram as cargas trabalhistas e diminuíram a competitividade de seus produtos, epa!, parece até que estamos falando do jeitão lulopetista de governar. Seria uma autocrítica tardia? Antes Tarso do que nunca.
E o que não fizeram os companheiros europeus? As reformas tributárias, previdenciárias, políticas e econômicas que deviam fazer. E foram atropelados pelos fatos, pelos números e pelas leis implacáveis do mercado, aquelas que não mudam por decreto nem por "vontade política".
Nem bem refeito do choque com a surpreendente advertência de Tarso, levo um susto com o que leio nos jornais:
"É natural que os partidos indiquem os ministros e o seu entorno, mas o resto deve ser da burocracia, com servidores concursados."
Quem disse isso foi José Dirceu, aparelhador-mor do Estado, articulador das alianças com partidos podres e políticos fisiológicos que rapinam os cofres públicos, que agora defende a meritocracia e não mais a "ocupação estratégica dos espaços políticos" para a realização do grande plano de poder petista. Duro vai ser tirar a companheirada do bem-bom e dar esses 25 mil cargos aos funcionários mais competentes.
Para nossa ainda maior surpresa, o PT desistiu publicamente da sua bandeira histórica do "controle social da mídia". E para encerrar a sucessão de assombros, as palavras abalizadas de Sarney, o nepotista-mor: "Parentes no governo só criam problemas".
Não sei não, mas se eles continuarem com essas ideias amalucadas, corremos o risco de acabar caindo numa democracia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

JORNALISMO AGENDA POSITIVA

Carlos Alberto Di Franco - O Estado de S.Paulo
Impressiona o crescente espaço destinado à violência nos meios de comunicação, sobretudo no telejornalismo. Catástrofes, tragédias e agressões, recorrentes como chuvas de verão, compõem uma pauta sombria e perturbadora. A violência, por óbvio, não é uma invenção da mídia. Mas sua espetacularização é um efeito colateral que deve ser evitado. Não se trata de sonegar informação. Mas é preciso contextualizá-la. O excesso de violência na mídia pode gerar fatalismo e uma perigosa resignação. Não há o que fazer, imaginam inúmeros leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Acabamos, todos, paralisados sob o impacto de uma violência que se afirma como algo irrefreável e invencível. Assiste-se aos arrastões nas avenidas, praças e marginais como parte do cotidiano das cidades sem segurança. Não pode ser assim. Podemos todos - jornalistas, formadores de opinião, estudantes, cidadãos, enfim - dar pequenos passos rumo à cidadania e à paz.

Os que estamos do lado de cá, os jornalistas, carregamos nossas idiossincrasias. Sobressai, entre elas, certa tendência ao catastrofismo. O rabo abana o cachorro. O mote, frequentemente usado para justificar o alarmismo de certas matérias, denota, no fundo, a nossa incapacidade para informar em tempos de certa normalidade. Mas mesmo em épocas de crise (e estamos vivendo uma importante crise de segurança pública) é preciso não aumentar desnecessariamente a temperatura. O jornalismo de qualidade reclama um especial cuidado no uso dos adjetivos. Caso contrário, a crise real pode ser amplificada pelos megafones do sensacionalismo. À gravidade da situação, inegável e evidente, acrescenta-se uma dose de espetáculo. O resultado final é a potencialização da crise. Alguns setores da mídia têm feito, de fato, uma opção pelo negativismo. O problema não está no noticiário da violência, mas na miopia, na obsessão pelos aspectos sombrios da realidade. É cômodo e relativamente fácil provocar emoções. Informar com profundidade é outra conversa. Exige trabalho, competência e talento.
O que eu quero dizer é que a complexidade da violência não se combate com espetáculo, atitudes simplórias e reducionistas, mas com ações firmes das autoridades e, sobretudo, com mudanças de comportamento. Como salientou certa vez o antropólogo Roberto DaMatta, "se a discussão da onda de criminalidade que vivemos se reduzir à burrice de um cabo de guerra entre os bons, que reduzem tudo à educação e ao "social", e os maus, que enxergam a partir do mundo real - o mundo da dor e dos menores e maiores assassinos - e sabem que todo ato criminoso é também um caso de polícia, então estaremos fazendo como as aranhas do velho Machado de Assis, querendo acabar com a fraude eleitoral mudando a forma das urnas". O que critico não é a denúncia da violência, mas o culto ao noticiário violento em detrimento de uma análise mais séria e profunda.
Precisamos, ademais, valorizar editorial e informativamente inúmeras iniciativas que tentam construir avenidas ou vielas de paz nas cidades sem alma. É preciso investir numa agenda positiva. A bandeira a meio pau sinalizando a violência sem-fim não pode ocultar o esforço de entidades, universidades e pessoas isoladas que, diariamente, se empenham na recuperação de valores fundamentais: o humanismo, o respeito à vida, a solidariedade. São pautas magníficas. Embriões de grandes reportagens. Denunciar o avanço da violência e a falência do Estado no seu combate é um dever ético. Mas não é menos ético iluminar a cena de ações construtivas, frequentemente desconhecidas do grande público, que, sem alarde ou pirotecnias do marketing, colaboram, e muito, na construção da cidadania.
A preocupação social, felizmente, começa a mobilizar muita gente. Multiplicam-se iniciativas sérias de promoção humana. Conheço de perto uma obra notável. Sob inspiração da prelazia do Opus Dei, foi fundado em 1985 o Centro Educacional e Assistencial de Pedreira (www.pedreira-centro.org.br). Nasceu de um ideal de diversos profissionais e estudantes preocupados em organizar um trabalho social sério na zona sul de São Paulo. Após estudo da situação e das suas necessidades, verificou-se que no Bairro de Pedreira, a 30 km do centro da capital paulista, jovens de 10 a 18 anos se encontravam em situação de grave risco social, expostos a drogas, marginalidade e criminalidade. Implementou-se, então, uma escola técnica para jovens carentes que dispusesse de tudo o que uma escola de "primeira linha" pode oferecer.
A Pedreira - como é carinhosamente conhecida - tem atualmente capacidade para 500 alunos e conta com aproximadamente 5 mil m2 de área construída, distribuídos num terreno de 23 mil m2. Oferece cursos básicos de Eletricidade Residencial e Industrial, Auxiliar de Informática e Informática Aplicada, e cursos técnicos de Administração e de Redes de Computador e Telecomunicações, com duração de um a dois anos.
Muitos dos alunos são a principal fonte de renda em sua família, o que constitui um impacto social relevante. Além disso, deixam a escola com a clara consciência da necessidade de estudar com afinco e dedicação. Com essa mentalidade, é comum que muitos dos alunos da Pedreira cheguem ao nível universitário, uma meta quase impensável no início de seus estudos, em virtude de suas difíceis condições de vida. Mudar é possível.
Por isso, os esforços da Pedreira e de tantas pessoas engajadas no mutirão da inclusão merecem registro jornalístico. Não resgatarão, por óbvio, nossa imensa fatura social, mas sinalizam uma atitude importante: olhar a pobreza não com o distanciamento de uma pesquisa acadêmica, mas com a fisgada de quem se sabe parte do problema e, Deus queira, parte da solução. Iluminar boas iniciativas e construir uma agenda positiva é um modo de construir a paz.

DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO
E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BR

domingo, 7 de agosto de 2011

PT,saudações!!!! AO PASSADO.

Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo
Cui bono? Em benefício de quem? Essa era a pergunta que os antigos romanos costumavam fazer quando se deparavam com situações enrascadas ou decisões polêmicas dos seus cônsules e membros do Senado. Se a política no mundo contemporâneo se torna um exercício de fuga da verdade, a velha indagação romana reveste-se de grande atualidade. Quem se beneficia com os dribles à realidade?

Há quatro séculos Francis Bacon, o filósofo inglês, já apontava que os políticos são bons ilusionistas. Alguns tentam impedir que as pessoas os tomem como efetivamente se apresentam, outros multiplicam argumentos para provar que não são o que deles se pensa ou fingem ser o que não são. No palco da política, a simulação e a dissimulação tornam-se ferramentas indispensáveis para a grandeza do espetáculo e o aplauso das plateias. Por isso os atores se esmeram em artifícios para melhorar o desempenho no teatro político. Mas os artifícios, como arabescos carnavalescos, mudam de cor e de cenário, ao sabor de momentos e circunstâncias.
Veja-se, por exemplo, o artifício das prévias, que o Partido dos Trabalhadores (PT) incluiu em seu estatuto por enxergar nele alta taxa democrática. Prévias propiciam às bases escolher candidatos aos pleitos, ajustando posições, integrando vontades, respeitando maiorias, enfim, fornecendo oxigênio aos pulmões partidários. Se assim é, por que as prévias passaram, agora, a ser malvistas? Porque, respondem alguns, o PT precisa ter "maturidade política". O que vem a significar isso? Ou, em termos romanos, cui bono? A quem o enterro das prévias petistas beneficia?
A resposta é complexa. Embute a história de uma agremiação que não é aquela que diz ser e finge ser o que não é. O fim das prévias, decisão a ser tomada no 4.º Congresso do PT, em setembro, coroará o fechamento da era ideológica do partido. O argumento de que consulta prévia abre rachaduras na base reforça a tese de que a sigla, como todas as outras, adentra o espaço da competitividade política sob o império de uma nova ordem. Hoje a meta petista é aprofundar os pilares do partido no centro e nas margens do poder. Para tanto os fins justificam qualquer mudança na metodologia de conquista. Nesse caso, a verticalização de comando faz-se necessária para afastar dissidentes, grupos insatisfeitos e quadros que insistem em reviver a utopia socialista.
É oportuno lembrar que o PT é um partido de facções. Há, porém, um grupo majoritário que dá as cartas, define estratégias, estabelece rotinas e impõe o mando. Pois bem, essa nova disposição arquiva no baú da História a velha sigla formada, há três décadas, pela comunhão de interesses de sindicatos, ala progressista da Igreja Católica, intelectuais e quadros que militaram nas frentes contra a ditadura. Desse PT original só restam resquícios. Hoje os sindicatos são as pernas de centrais absorvidas pelo establishment. Já os parceiros religiosos se dispersaram. Ou perderam a crença. Militantes, por sua vez, esvaziaram os pulmões revolucionários, migraram para outras siglas, enquanto alguns foram indenizados e outros passaram a integrar as "milícias" do Estado como burocratas.
O velho PT é um retrato na parede.
A alteração da fisionomia, vale lembrar, começou antes da ascensão da sigla ao pódio central do poder, em 2002, com a primeira eleição de Lula. O pano de fundo descortina o cenário da despolitização e desideologização, com os traços marcantes da queda do Muro de Berlim, cujos efeitos se fazem notar em fenômenos como o arrefecimento da densidade ideológica da competição política, o abandono de intransigências doutrinárias e o refluxo do antagonismo de classes. Por estas plagas, as cores doutrinárias também se tornaram menos contrastantes, mais leves, por causa da expansão econômica, que aproximou identidades e provocou mudança de paradigmas. Os partidos substituíram o escopo ideológico por eficácia eleitoral, significando isso pragmatismo e prioridade à micropolítica (demandas setoriais de comunidades e localidades). Nossa democracia representativa ganhou o reforço da democracia supletiva, sendo esta fruto da pressão de grupos organizados e entidades intermediárias, polos de demandas grupais e comunitárias. A nova topografia política espalhou-se pelo território, siglas tradicionais perderam força e outras, menores, começaram a se mexer no palco. Com o ingresso de mais participantes o espectro político tornou-se multifacetado.
Sob essa arrumação e acomodação ideológica, faltava apenas o pulo do gato para o PT se conformar ao modus faciendi da política tupiniquim. O pulo do gato era o ingresso no paraíso, meta só alcançável se Luiz Inácio, ex-metalúrgico treinado na arte de conquistar as massas, realizasse a façanha de tomar assento principal naquele palácio cujas colunas seu criador, Oscar Niemeyer, dizia serem "leves como penas pousando no chão". Depois de três tentativas, lá ele se plantou por oito anos, tempo que aproveitou para fazer uma administração de sucesso, ganhar prestígio nacional e internacional e, sob o prisma partidário, prolongar o ciclo do PT no comando do País.
O xis da questão está decodificado. Qualquer disposição - norma, instrumento, meio, recurso - necessária para extensão do projeto de poder do PT deve ser aceita e internalizada por seus membros. Prévias, em determinada fase da vida petista, significavam algo bem diferente do que representam nestes tempos de conquista do "poder pelo poder". Hoje abrem fissuras, provocam disputas, geram dissensões. A meta de perpetuação no poder requer ordem unida. Que carece de concórdia nas bases.
Essa é a indeclinável nova maneira de ser do PT. Assentada com a argamassa do pragmatismo. Ancorada no acolhimento de todas as facções no seio da administração. Firmada com parceiros temporários. E com a visão grudada nas colunas do Palácio do Planalto.
Cui bono? Agora se sabe.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO TWITTER: @GAUDTORQUATO

sábado, 6 de agosto de 2011

UMA ESCOLHA INFELIZ jornal- O ESTADO DE SÃO PAULO

- O Estado de S.Paulo
Nelson Jobim fez por merecer a decisão da presidente Dilma Rousseff de exigir que se demitisse do Ministério da Defesa, para não obrigá-la a demiti-lo. Na pasta desde 2007, foi mantido a pedido de seu admirador Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma atendeu ao pedido, mas confinou o apadrinhado ao seu cantão, sem ser chamado para opinar sobre questões políticas e jurídicas alheias à sua área, como Lula fazia a três por quatro, nutrindo as ambições políticas do ministro. Foi além, o ex-presidente, em suas mesuras ao seu protegido, ao manobrar para que chegasse ao comando do PMDB a fim de que o partido o indicasse para vice de Dilma.

Dado esse retrospecto, não será difícil de imaginar o ressentimento de Jobim com a perda de prestígio no Planalto, certamente agravado pelos cortes no orçamento militar que atingiram duramente os projetos de reequipamento das Três Forças e pelas diferenças entre ele e a presidente sobre a questão dos guerrilheiros desaparecidos no Araguaia, entre outros motivos para frustração. A frustração foi o que decerto o levou a dar vazão ao que o seu temperamento tem de mais criticável - a pesporrência que leva à insopitável incontinência verbal a que ele se entregou com frequência ao longo da carreira política, sempre se retratando em seguida. Desta vez a retratação pública não evitou o que parece ser o fim dessa carreira.
Jobim já tinha sido no mínimo indelicado com a presidente da República, à qual devia obediência e respeito, ao insinuar que "os idiotas" se aboletaram no governo e ao tornar público que na última eleição votara no amigo tucano José Serra. Tudo isso ela ouviu em silêncio. O que definitivamente não poderia admitir, sob pena de desmoralização, foi a entrevista do ministro à revista Piauí. Menos pelas grosserias com que se referiu às colegas Ideli Salvatti e Gleisi Hoffman, do que pela versão que deu a uma conversa com a presidente sobre a nomeação do petista José Genoino para assessorá-lo na Defesa. Perguntado sobre a utilidade do ex-deputado na função, ele respondeu: "Quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu".
Feita a coisa certa, ato contínuo a presidente fez o seu contrário. Na ânsia de encerrar rapidamente mais este episódio infeliz do seu breve governo, escolheu o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim para o lugar de Jobim, sem dedicar algum tempo à avaliação dos problemas que poderá criar para o seu governo na pasta da Defesa. Se tivesse feito isso poderia ver o que salta à vista de todo estudioso da era Lula, ou seja, que nem as Forças Armadas mereciam isso depois de ser comandadas pelo primeiro civil que se fizera respeitar por elas nem o País merecia isso depois de Jobim ter sido o primeiro na pasta a consolidar os instrumentos legais, políticos e administrativos que asseguram a subordinação da esfera militar ao poder civil. Julguem-se como se queiram todas as demais atitudes de Jobim, nisso ele foi exemplar.
Eis que é sucedido pelo homem errado no lugar errado. Primeiro, Dilma errou por entregar a Defesa a quem passou os últimos oito anos - com o entusiasmado aval de Lula - impondo um viés ideológico bolivariano à diplomacia brasileira, com a agravante de ter sido um fracasso total. O apoio ao Irã de Ahmadinejad, a identificação com a Cuba dos irmãos Castro e a confraternização com a Venezuela de Hugo Chávez configuraram uma política que "contrariou princípios e valores" das Forças Armadas, na avaliação de oficiais-generais da ativa ouvidos por este jornal sob a condição de anonimato.
Em segundo lugar, Dilma errou por nomear um egresso do Itamaraty para cuidar dos assuntos militares, aparentemente alheia à verdade elementar de que a função do soldado começa quando se esgota a do negociador. A guerra pode ser a continuação da política por outros meios, mas há um abismo entre a mentalidade de um general e a de um diplomata. As duas áreas cruciais do Estado devem se articular nas circunstâncias necessárias. Mas as culturas profissionais inerentes a uma e a outra são distintas, quando não, distantes. Essa questão de fundo continuaria a existir fosse o escolhido de Dilma um ex-chanceler que tivesse se pautado pelo interesse nacional como o interpretam os militares. Com um ideólogo, então, é brincar com fogo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A ESMO NO LODAÇAL Dora Kramer O Estado de São Paulo

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
Pode ser que seja apenas choro de perdedor. Mas pode ser também que tenham fundamento as denúncias de Oscar Jucá, o irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá, demitido na diretoria financeira da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) por autorizar irregularmente o pagamento de dívida de R$ 8 milhões a empresa registrada em nome de dois "laranjas".

Ele acusa o próprio ministro na Agricultura, Wagner Rossi, de comandar um esquema de corrupção "pior" do que aquele que levou o governo a promover 27 demissões no Ministério dos Transportes.
Rossi é do PMDB - partido que ocupa três das cinco diretorias da Conab - e foi indicação direta do vice-presidente Michel Temer. A acusação, se verdadeira, atingiria o partido que na semana passada chegou a redigir uma nota oficial exortando os "órgãos de controle" a cumprirem seu dever de fiscalizar sem dó nem piedade todas as suspeitas irregularidades na administração federal, envolvendo o PMDB ou qualquer outro partido da coalizão governamental.
Os pemedebistas estavam especialmente desconfortáveis com versões de que seriam poupados da ofensiva ética para evitar retaliações ao governo no Congresso. Da nota não se teve mais notícia - pelo visto achou-se por bem não oficializar por escrito a defesa da transparência.
O governo, de seu lado, rechaçou desconfianças de que a limpeza poderia ser seletiva, limitando-se ao mal-afamado e combalido PR. "Vai continuar", repetiu várias vezes a presidente Dilma Rousseff sempre que lhe perguntaram sobre sua disposição de mudar o escopo da obra do fisiologismo.
"Nenhum ato (de corrupção) será tolerado", começou a semana dizendo Gilberto Carvalho, garantindo que o governo iria "para cima" quando houvesse denúncias.
Pois bem, surgiu uma com nome e sobrenome do denunciante, que aponta a existência de um balcão de negócios no Ministério da Agricultura.
Do partido até outro dia indignado com ilações ao seu respeito o que se ouviu foi um pedido de desculpas feito pelo irmão do acusador à presidente.
Célere no caso dos Transportes, o Palácio do Planalto quedou-se inerte diante do PMDB, a quem atribuiu a tarefa de "resolver" o problema. Da parte de quem transmitiu à sociedade a impressão de que o rigor seria a palavra de ordem de agora em diante, seria de se esperar alguma atitude.
Ao menos o anúncio da determinação de apurar se o que disse Oscar Jucá é passível de investigação ou se as acusações, na visão da presidente, são denúncias vazias.
A falta de clareza e de firmeza no trato do episódio que põe na berlinda o PMDB elide a credibilidade da presidente da República. Mais: levanta a suspeita de que o PR pode ter sido escolhido a esmo no meio do lodaçal para fazer o papel de contraponto numa investida meramente promocional da imagem de Dilma Rousseff.
Bom entendedor. O senador Alfredo Nascimento, ex-ministro dos Transportes, disse ontem no Senado que todos os aumentos de preços em obras do PAC foram feitos enquanto Dilma e ele estavam afastados para concorrer à Presidência e ao Senado, respectivamente.
Ou seja, durante a campanha eleitoral sobre cujas arrecadações se lançam suspeitas recorrentes.
Em andamento. A propósito de artigo sobre a ausência de ação da Polícia Federal nos casos dos demitidos do Ministério dos Transportes, o Ministério da Justiça informa que a PF está analisando cada um deles para verificar se há necessidade de abertura de novas investigações ou se podem ser enquadrados nos mais de 80 inquéritos já abertos envolvendo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Valec, empresa encarregada das ferrovias.
Parada técnica. A partir de amanhã e pelos próximos dez dias. Até a volta em 15 de agosto.

PROGRAMAS ESQUECIDOS jornal ESTADO DE S.PAULO

- O Estado de S.Paulo
À medida que entra na rotina, o governo da presidente Dilma Rousseff começa a deixar de lado projetos demagógicos concebidos pelo governo anterior para favorecê-la na disputa eleitoral de 2010. O último projeto "esquecido" é o programa "Educação e Qualificação para Comunidades Extrativistas", elaborado pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas e pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), com o aval pessoal do presidente Lula.

Também chamado de "Saberes da Floresta" e financiado com recursos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o projeto se destina a atender a população ribeirinha das 89 Reservas Extrativistas e de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia e sua trajetória é mais um exemplo de como a educação tem sido gerida. Com alto número de analfabetos, 60 mil famílias vivem nas reservas da exploração de seringais, da colheita de castanhas e da agricultura de subsistência.
O objetivo da SAE era desenvolver estratégias e ações voltadas para o ensino de crianças e jovens que moram na área, onde a rede pública só mantém escolas até a 4.ª série do ensino fundamental. Para continuar os estudos, os jovens têm de se mudar para as cidades.
Essa mudança gera dois graves problemas. O primeiro é o esvaziamento das comunidades, onde só permanecem velhos, mulheres e crianças. O segundo problema está na dificuldade que esses jovens têm para se adaptar à vida urbana. Com uma vida até então inteiramente voltada à família e à natureza, os rapazes começam a beber e a se envolver em brigas, enquanto as meninas são atraídas pela prostituição. Dos que completam o ensino básico, poucos retornam à comunidade - e, quando o fazem, trazem hábitos que levam à desagregação de suas famílias.
Além de ignorar a gravidade desses problemas, o programa "Educação e Qualificação para Comunidades Extrativistas" se destaca pelo simplismo de suas propostas e pelo uso abusivo de jargões políticos - um vício dos movimentos sociais e do PT. Em seu documento de apresentação, por exemplo, o programa se propunha a elaborar "produtos síntese" - entre eles a construção de uma "política de educação na floresta" que expresse a visão que as populações extrativistas têm sobre educação e profissionalização. "Nós temos que ter uma educação diferenciada, onde o meu filho saiba que tem, hoje, uma condição de vida mais favorável por causa de toda uma luta que houve, dos que enfrentaram o sistema de governo e as situações que existiam, para poder trazer a qualidade de vida. Ele precisa se tornar parte e continuar carregando essa bandeira; senão, essa bandeira, daqui uns dias, vai deixar de existir, porque você não dá valor às coisas que você não conhece - você precisa conhecer para dar valor", diz Manuel Cunha, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas.
Entre outras "prioridades", o projeto repetia recomendações do 1.º Encontro Nacional de Seringueiros da Amazônia, realizado em 1985, como "a divulgação de histórias, poesias, músicas, receitas e objetos fabricados por seringueiros" e a inclusão na merenda escolar de "produtos oferecidos pela região". Ele também propunha um elenco de dez princípios - quase todos tautológicos. Um deles afirmava que "a criança precisa saber que é parte da vida na floresta e nas águas". Outro enfatizava que "as pessoas da floresta estão conectadas e que não é possível desplugá-las". Em matéria de "encaminhamentos", o projeto tecia considerações óbvias sobre qualidade da educação e capacitação docente e propunha a busca de "apoio financeiro direto" da União.
Custa crer que uma iniciativa tão simplória e demagógica como essa tenha consumido recursos humanos do governo e dinheiro do Pnud - além de ter sido anunciada espalhafatosamente pela rede pública de comunicação do governo Lula. Agora a presidente Dilma Rousseff faz a coisa certa, engavetando - com a devida discrição - programas que jamais deveriam ter sido apresentados como projetos de governo