Eliana Cardoso, PH.D pelo MIT, é professora titular da FGV-São Paulo - O Estado de S.Paulo
O Chico disse que não existe pecado do lado debaixo do Equador. Não adiantou. Luis Fernando Verissimo chamou a pizza com abacaxi de antinatural e a colocou no fogo eterno, bem no centro do círculo onde Dante meteu os banqueiros. Quem comunga do ódio aos donos dos spreads riu da refeição presenteada ao desafeto. Castigo merecido?
Talvez não. Pois, no Brasil, os excessos financeiros (que acarretam problemas fiscais) não se originam no setor privado, mas nos bancos públicos, ao contrário do que se passa nos EUA e na Europa. Vale começar a comparação pelo mundo desenvolvido. O povo - que ocupou ruas em Nova York e Londres depois de 2008, quando a realidade acabou com a farra financeira e a classe média pagou a conta - demonstrou sua revolta contra disparidades alarmantes. Em 2007, no auge do boom financeiro, a remuneração média dos presidentes dos sete maiores bancos dos EUA equivalia a 500 vezes a renda média da família americana. No Reino Unido, os presidentes de seus quatro maiores bancos recebiam proventos correspondentes a 230 vezes a renda média da família inglesa.
Apesar disso, a crise não nasceu da vilania de alguns indivíduos. Refletiu - isso sim - o fracasso da governança no setor financeiro. No começo do século 19, sob o regime de responsabilidade ilimitada - no qual o dono-gerente cobria com os próprios bens os prejuízos bancários - a prudência garantia o controle do risco. O mundo mudou quando, ainda no século 19, a necessidade de capital para financiar as estradas de ferro levou a reformas legislativas que permitiram aos bancos ter grande número de sócios, separando posse e gerência e limitando a responsabilidade dos acionistas.
Em 1974 Robert Merton, Prêmio Nobel de Economia, demonstrou que a ação de uma empresa em regime de responsabilidade limitada tem preço como opção. O valor dessa opção aumenta com a incerteza sobre o valor dos ativos. Inacreditável? Não. É isso mesmo. A incerteza aumenta tanto riscos de ganhos quanto riscos de perdas. A responsabilidade limitada impõe um chão às perdas. Para os ganhos, entretanto, o céu é o limite. Para maximizar o valor de suas ações os bancos buscam apostas maiores e mais arriscadas.
Durante o século 20 a multiplicação de instrumentos complexos deixou no chinelo o milagre dos cinco pães e dois peixes do Novo Testamento. E no começo do século 21 a volatilidade dos lucros bancários na Inglaterra tornou-se duas vezes e meia maior do que fora no começo do século 20.
A expansão dos lucros bancários inclui um procedimento que aumenta ao mesmo tempo o lucro e o risco e se chama alavancagem (a razão entre o valor dos ativos e o valor do patrimônio). Mesmo que a taxa de retorno sobre os ativos (empréstimos, investimentos, encaixes e reservas) continue inalterada, o banco pode aumentar sua receita expandindo os ativos (seus empréstimos, por exemplo). Ao ampliar a alavancagem de um para dois, o banco dobra sua receita. Ao aumentá-la para quatro, quadruplica a receita. E assim por diante. Na Inglaterra essa razão girava entre três e quatro na metade do século 19, passou a mais de 20 no século 20 e chegou a 30 em 2007.
Essa estratégia tem seu lado ruim. Se a alavancagem é dois, para que o patrimônio do banco deixasse de existir pelo menos metade dos ativos teria de evaporar. Mas se a alavancagem é 20, basta que 5% dos ativos apodreçam para que o banco se torne insolvente. Neste caso, qualquer recessão, aumentando a inadimplência, se transforma em forte ameaça para o setor financeiro.
Em teoria, a disciplina do mercado, na figura do depositante que monitora riscos, deveria contrabalançar os incentivos perversos da responsabilidade difusa dos bancos modernos. Na prática, a recente crise financeira dos países desenvolvidos demonstrou que a disciplina do mercado não funciona e que a supervisão do governo é necessária. As regras de Basileia 3 representam um passo na direção correta, mas mesmo elas ainda são modestas para impedir que os bancos tomem riscos excessivos.
No Brasil, de 2006 aos dias de hoje, a alavancagem (medida como a razão entre os ativos totais e o patrimônio líquido dos bancos) situa-se entre os números 10 e 11, menos da metade do valor observado na Inglaterra ou nos EUA. Podemos dormir tranquilos?
Não. Pois tem uma pedra no caminho do bom funcionamento do nosso sistema financeiro: a interferência do governo nos bancos públicos. A tentativa do governo de diminuir os spreads no grito, por meio da redução forçada dos juros nos empréstimos do BB e da Caixa, choca-se com a necessidade dos bancos de fazerem provisões em face do recente aumento da inadimplência. Se os spreads viessem de fato a cair, já que os custos administrativos e de regulação continuam inalterados, a expectativa de redução dos lucros poderia induzir posições mais arriscadas.
Wen Jiabao, primeiro-ministro da China, declarou na semana passada que os bancos públicos de seu país são grandes demais, ganham muito dinheiro e acumulam muito poder. Por isso precisam ser desmembrados. As declarações de Wen Jiabao refletem o sentimento de que a redução dos bancos públicos é imprescindível para a disciplina do sistema financeiro.
No Brasil, o governo anda na contramão do líder chinês com a proposta de expandir os empréstimos do BB, da Caixa e do BNDES. Ideologia e ressentimentos são maus conselheiros. Não ajudam a encontrar o caminho que restrinja de fato o poder oligopolista dos bancos e a influência do dinheiro nas políticas públicas.
Expandir as operações dos bancos públicos valendo-se da garantia de que eles não podem quebrar, porque o Tesouro Nacional pode capitalizá-los com o dinheiro do contribuinte, é um erro. Temo que o governo esteja a cobrir a pizza dos brasileiros com fatias de abacaxi.
BRAÇO FORTE MÃO AMIGA
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A VERDADE DO blá, blá, blá........
O Estado de S.Paulo
O reconhecimento da cachaça como produto brasileiro e do bourbon como produto americano foi o evento mais notável da visita da presidente Dilma Rousseff à capital do país mais rico e mais poderoso do mundo. Nenhuma grande questão comercial foi examinada, embora os Estados Unidos sejam o maior mercado consumidor do globo e tenham sido, até há poucos anos, o maior parceiro comercial do Brasil.
Essa posição é hoje ocupada pela China, não só porque os brasileiros ampliaram e diversificaram suas parcerias, mas também porque o intercâmbio com o mercado americano foi deixado em plano secundário, a partir de 2003, nas preocupações da diplomacia comercial de Brasília. Poucos assuntos à altura de um encontro do mais alto nível entraram na agenda levada a Washington pela presidente brasileira. Um deles foi a suspensão da compra de aviões da Embraer pela Força Aérea dos Estados Unidos. Tocou-se no assunto em conversa reservada. Nenhuma referência ao tema foi feita publicamente.
Na entrevista coletiva depois do encontro fechado, a presidente Dilma Rousseff retomou a pregação contra a política dos bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa, protestando mais uma vez contra a grande emissão de dinheiro, ou, em sua terminologia predileta, contra o tsunami monetário criado por essa política.
À sua maneira, a presidente Dilma Rousseff repete as perorações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, contra o que ele chama de guerra cambial, movida pelas autoridades do mundo rico. Ela evita a expressão guerra cambial, sem deixar, no entanto, de classificar a depreciação do euro e do dólar como uma forma de protecionismo comercial.
A arenga foi repetida na Casa Branca, diante da imprensa, e a presidente Dilma Rousseff aproveitou a ocasião para apontar aos líderes do mundo rico sua responsabilidade pela recuperação da economia global. Todos são responsáveis, evidentemente, mas não tem sentido cobrar do presidente americano uma alteração da política monetária. As ações do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) estão fora da alçada da Casa Branca e a presidente Dilma Rousseff parece ter esquecido esse detalhe. Mas a política monetária poderia ser mais moderada, segundo seu argumento, se o Tesouro gastasse mais para estimular a economia. O presidente Obama sabe disso e o orçamento de seu governo já é muito deficitário.
Também na parte política a viagem pouco rendeu. Bateu-se, mais uma vez, na tecla da ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da pretensão brasileira a um lugar permanente. O comunicado emitido em nome dos dois presidentes foi tão chocho, quanto a esse tema, quanto havia sido no fim da visita de Obama ao Brasil, no ano passado. O presidente americano manifestou, mais uma vez, seu "apreço" pela pretensão brasileira. Em relação à reforma do Conselho, ambos concordaram com uma ampliação "limitada", na versão em português, ou "modest", segundo o texto em inglês. A informação teria sido mais clara e mais realista com uma tradução literal da palavra "modest".
O entusiasmo do governo americano em relação a alterações no Conselho de Segurança continua mínimo e isso é especialmente compreensível quando se trata da pretensão brasileira. A presidente Dilma Rousseff voltou a tocar num dos temas prediletos da diplomacia petista, insistindo na participação de Cuba nos eventos diplomáticos do hemisfério, como a Cúpula das Américas, marcada para este fim de semana em Cartagena, na Colômbia. Pelo menos a política nuclear do Irã ficou fora da conversa, segundo a presidente. Talvez tenha faltado tempo.
Houve referências à possível participação americana em projetos brasileiros de infraestrutura e na exploração do pré-sal. O tema é importante, mas a conversa parece ter ficado nas generalidades. A visita serviu principalmente, segundo alguns analistas, para mostrar uma evolução nas relações bilaterais, agora menos tensas do que no período do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pode ser, mas essa melhora pouco valerá sem uma agenda econômica mais ambiciosa e muito mais pragmática.
domingo, 1 de abril de 2012
PESCANDO EM ÀGUAS TURVAS!!!!!
O Estado de S.Paulo
Bem que o então presidente Lula avisou: "O que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil sistematicamente". À época, em meados de 2005, ele falava do caixa 2 dos partidos e seus candidatos. Tratava-se de uma marota tentativa de calar a denúncia do mensalão, reduzindo o escândalo sem precedentes da compra sistemática de votos de deputados em benefício do seu governo ao que seria o pecadilho - amplamente difundido - do recebimento e dispêndio de "recursos não contabilizados" para ganhar eleições, conforme o eufemismo do memorável tesoureiro petista Delúbio Soares.
Mas não será por falta de empenho de sua gente que o álibi confeccionado por Lula há quase sete anos perderá atualidade. Que o digam, por exemplo, os seus companheiros de Santa Catarina. E que o diga a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvati, alçada pela presidente Dilma ao cargo de coordenadora política do Planalto depois de ocupar, entre janeiro e junho do ano passado, o semiclandestino Ministério da Pesca - como parco prêmio de consolação por ter perdido a disputa pelo governo do Estado, em outubro de 2010. Em recursos contabilizados, o PT estadual bancou 81% dos R$ 3,6 milhões que a campanha custou. No meio do caminho, o partido recebeu uma doação de R$ 150 mil.
Aí que a história começa a ficar parecida com tantas outras que fazem parte dos usos e costumes políticos do País - com a suposta diferença de que o PT "tem na ética uma de suas marcas mais extraordinárias", nas palavras de Lula para exorcizar o mensalão. Entre 2009 e 2010, sendo o titular da Pesca o também catarinense Altemir Gregolin, a pasta encomendou a uma empresa local, Intech Boating, um total de 28 lanchas-patrulha, ao custo de R$ 31 milhões. Nesse meio tempo, o sócio majoritário da Intech, o paulista José Antonio Galízio Neto, de longa data filiado ao PT, recebeu o irrecusável convite de doar os referidos R$ 150 mil ao comitê financeiro do partido - o que aceitou prazerosamente.
"Não achei nada demais", disse Galízio ao Estado, "porque no governo para quem eu estava trabalhando, faturando naquele momento R$ 23 milhões, R$ 24 milhões, não havia (sic) nenhum tipo de irregularidade." No entanto, como quem quer que o interlocutor confunda popa com proa, ele ora afirmou que "a solicitação de doação veio pelo Ministério da Pesca, é obvio", ora que veio de um político local, que estaria querendo "se aproveitar do negócio" e cujo nome ele se recusou a dar. "Com a insistência, falei: 'tudo bem, vou fazer a doação para o partido'." Seria o toma lá dá cá das enlameadas relações entre a área pública enfeudada pelos partidos e os seus fornecedores, não fossem alguns agravantes.
Primeiro, o Ministério não tinha nada que comprar lanchas para coibir a pesca irregular, simplesmente porque isso ainda não fazia parte de suas atribuições. Segundo, a pasta não foi capaz de encontrar nem serventia nem abrigo para a flotilha. Tanto que 23 das 28 embarcações ficaram no estaleiro dos próprios fornecedores. "O Ministério me deve quase R$ 400 mil porque fiquei guardando os barcos, limpos e funcionando", reclama Galízio. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) comprovou a enormidade. Em terceiro lugar, a investigação apontou indícios de superfaturamento e licitação dirigida. Sintomaticamente, no último dia de seu mandato, em 2010, o ministro Gregolin encomendou à Intech mais cinco lanchas, embora não soubesse o que fazer com as outras.
Dificilmente a ministra Ideli Salvatti conseguirá navegar politicamente ao largo do escândalo. Se é verdade que não era ela quem conduzia o momentoso Ministério da Pesca, é verdade também que ela não ficou alheia ao arrastão do dinheiro público na pasta. Com bons motivos, decerto, ela aparece no centro da foto da assinatura de uma compra das inúteis lanchas-patrulha - bem no ano em que tentou se eleger governadora de Santa Catarina e pouco antes de substituir o companheiro Gregolin.
Já ao partido só resta agarrar-se à boia lançada por Lula em 2005: "Não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção".
Mas não será por falta de empenho de sua gente que o álibi confeccionado por Lula há quase sete anos perderá atualidade. Que o digam, por exemplo, os seus companheiros de Santa Catarina. E que o diga a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvati, alçada pela presidente Dilma ao cargo de coordenadora política do Planalto depois de ocupar, entre janeiro e junho do ano passado, o semiclandestino Ministério da Pesca - como parco prêmio de consolação por ter perdido a disputa pelo governo do Estado, em outubro de 2010. Em recursos contabilizados, o PT estadual bancou 81% dos R$ 3,6 milhões que a campanha custou. No meio do caminho, o partido recebeu uma doação de R$ 150 mil.
Aí que a história começa a ficar parecida com tantas outras que fazem parte dos usos e costumes políticos do País - com a suposta diferença de que o PT "tem na ética uma de suas marcas mais extraordinárias", nas palavras de Lula para exorcizar o mensalão. Entre 2009 e 2010, sendo o titular da Pesca o também catarinense Altemir Gregolin, a pasta encomendou a uma empresa local, Intech Boating, um total de 28 lanchas-patrulha, ao custo de R$ 31 milhões. Nesse meio tempo, o sócio majoritário da Intech, o paulista José Antonio Galízio Neto, de longa data filiado ao PT, recebeu o irrecusável convite de doar os referidos R$ 150 mil ao comitê financeiro do partido - o que aceitou prazerosamente.
"Não achei nada demais", disse Galízio ao Estado, "porque no governo para quem eu estava trabalhando, faturando naquele momento R$ 23 milhões, R$ 24 milhões, não havia (sic) nenhum tipo de irregularidade." No entanto, como quem quer que o interlocutor confunda popa com proa, ele ora afirmou que "a solicitação de doação veio pelo Ministério da Pesca, é obvio", ora que veio de um político local, que estaria querendo "se aproveitar do negócio" e cujo nome ele se recusou a dar. "Com a insistência, falei: 'tudo bem, vou fazer a doação para o partido'." Seria o toma lá dá cá das enlameadas relações entre a área pública enfeudada pelos partidos e os seus fornecedores, não fossem alguns agravantes.
Primeiro, o Ministério não tinha nada que comprar lanchas para coibir a pesca irregular, simplesmente porque isso ainda não fazia parte de suas atribuições. Segundo, a pasta não foi capaz de encontrar nem serventia nem abrigo para a flotilha. Tanto que 23 das 28 embarcações ficaram no estaleiro dos próprios fornecedores. "O Ministério me deve quase R$ 400 mil porque fiquei guardando os barcos, limpos e funcionando", reclama Galízio. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) comprovou a enormidade. Em terceiro lugar, a investigação apontou indícios de superfaturamento e licitação dirigida. Sintomaticamente, no último dia de seu mandato, em 2010, o ministro Gregolin encomendou à Intech mais cinco lanchas, embora não soubesse o que fazer com as outras.
Dificilmente a ministra Ideli Salvatti conseguirá navegar politicamente ao largo do escândalo. Se é verdade que não era ela quem conduzia o momentoso Ministério da Pesca, é verdade também que ela não ficou alheia ao arrastão do dinheiro público na pasta. Com bons motivos, decerto, ela aparece no centro da foto da assinatura de uma compra das inúteis lanchas-patrulha - bem no ano em que tentou se eleger governadora de Santa Catarina e pouco antes de substituir o companheiro Gregolin.
Já ao partido só resta agarrar-se à boia lançada por Lula em 2005: "Não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção".
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